🔵 187: "Sabor" produtivo
A procrastinação com roupa bonita
Esse é um texto que mistura Toguro, filosofia e tapa (de luva) na cara. Você vai entender.
Eu gosto muito de ler filosofia e, por mais clichê que possa parecer, estoicismo se tornou minha leitura preferida. Eu também gosto muito da filosofia oriental (já me aventurei de Lin Yutang a Lao Tse), mas o estoicismo me fisgou de um jeito diferente. Ele se tornou imediatamente aplicável à minha vida e, particularmente, mudou meu jeito de enxergar o mundo…
Mas esse não é um texto sobre o estoicismo.
Eu só peguei um gancho dele citando Sêneca agora: ele escreveu uma carta pra Lucílio há quase dois mil anos e sua frase de abertura ficou famosa, porque dizia “Ita fac, mi Lucili: vindica te tibi. Tempus fugit.” Diz a lenda que a tradução disso é algo como: “Lucílio, reivindique-se para si mesmo, porque o tempo foge.”
Sêneca falou nessa carta de pessoas que desperdiçam o tempo com distrações óbvias, com festas, conversas sem sentido, visitas desnecessárias e por aí vai.
Hoje, Sêneca provavelmente também falaria das notícias sensacionalistas, de perder tempo nas redes sociais e toda a sorte de inutilidades que assombram seu dia a dia (falamos sobre isso aqui também).
É aqui que entra o tapa (de luva) na cara: eu quero escrever aqui sobre o óbvio. Quero escrever sobre um erro que você muito provavelmente está cometendo (porque eu sei que estou). Quero escrever sobre o que provoca.
E eu sei que provocações são desconfortáveis, mas eu também sabe que você não tá lendo essa newsletter em busca de conforto (a não ser que tenha caído de paraquedas aqui).
Então, se ninguém te disse isso ainda, deixa que eu te digo:
Tem gente que não está sobrecarregada porque assumiu coisa demais, mas está sobrecarregada porque transformou preparação em um tipo de esconderijo.
É aquela turma que aprende mais, organiza mais, pesquisa mais, ajusta mais uma vez... Tudo isso parece trabalho (e às vezes até é), mas, em muitos casos, costuma ser um jeitinho de não se colocar em risco.
É aquela turma que, de acordo com Sêneca, não se reivindica a si mesma.
É tipo não pedir a promoção, porque ainda não chegou a hora certa. Não ter a conversa difícil, porque precisa pensar na abordagem perfeita. Não falar sua ideia, porque quer refinar ela (e depois ouvir alguém falar ela primeiro). Não delegar, porque a pessoa talvez não entregue do jeito que você entregaria. Não se posicionar, porque precisa estudar mais antes. Não publicar, porque o texto ainda não está bom o suficiente.
Se reconheceu aqui?
O resultado prático disso é uma vida cheia de preparação e vazia de exposição.
E isso vai doer em você de um jeito específico, porque parece disciplina, parece responsabilidade e parece que você está sendo cuidadoso e dedicado.
É foda ouvir, mas preparação que não leva a nada é só uma procrastinação, mas com roupa bonita. Tem muita coisa óbvia que nos atrapalha, mas esse texto é sobre algo não óbvio.
Inclusive, você não deveria estar se perguntando se está se preparando o suficiente. A pergunta que você pode se fazer, agora, é “Eu estou usando a preparação pra chegar mais perto ou pra nunca ter que chegar?”
Quem me conhece, sabe que sou um cara que defende com garras, dentes e unhas a preparação como fator de diferenciação pra qualquer profissional, porque é algo que está 100% no nosso controle.
Mas eu preciso mostrar esse outro lado da moeda, porque planejar e se preparar vaõ sempre parecer produtivos, mas nada nunca vai ser tão produtivo quanto executar.
Se esse texto te fez pensar, o Toguro provavelmente te chamaria de “sabor produtivo”. Agora é hora de colocar a mão na massa.
PS: esse foi um texto escrito pra mim mesmo. Espero que seja útil pra você.
Muito obrigado por ler até aqui.
Vamos juntos,



