🔵 175: Atenção esfarelada
Seu cérebro está se desesperando
Não consegui gravar a versão podcast hoje de novo, mas os outros episódios estão aqui pra você acompanhar. Em breve gravo esse também e os últimos que estou devendo. Pode cobrar.
Se eu gravo um vídeo no Instagram com todos os meus livros ao fundo, você forma uma imagem de mim. Se apareço com minha guitarra atrás no cenário, outra completamente diferente. Se eu filmo com as minhas telas e usando óculos? Outra completamente diferente.
Obviamente, nenhuma dessas coisas muda uma vírgula sobre o que eu realmente sei…
Mas você já parou pra pensar que a gente está sendo treinado pra prestar atenção nas coisas e criar nossas percepções e julgamentos nos 2, 3 primeiros segundos dos vídeos no Instagram e TikTok?
É tipo cachorro. Você estala os dedos pra chamar cachorro… Os vídeos “estalam dedos” pra chamar sua atenção.
E tem um negócio meio perigoso nisso: a gente tá sendo treinado pra julgar o valor de um conteúdo com base no que é intencionalmente raso.
A consequência disso é que a estética e a forma de comunicar estão deixando de se tornar “uma ponte” pro conteúdo sério e estão se tornando literalmente o filtro. Ou seja: a estética e o gancho de um vídeo estão se tornando o novo filtro de credibilidade. A atenção migra do que é dito para o que parece verdadeiro… E parecer verdadeiro, hoje, é quase tão valioso quanto ser.
E aí vem meu desabafo aqui: eu amo escrever, mas acho um saco gravar vídeo pro Instagram.
Não quero ser o cara anti vídeos curtos. Eles têm seu valor e eu que não aprendi (ainda) a fazer eles direito… Mas eu quero ser o cara pra gritar pros 4 cantos do mundo que nós deveríamos estar consumindo mais longos.
Esses dias eu postei em formato de carrossel uma das edições aqui da “eu te Digo”. O post tem 7 ou 8 imagens com um pouco de texto… Teve uma porrada de gente que compartilhou esse post e, curiosamente, muita gente também postou nos Stories dizendo “é um texto longo, mas vale a pena”. Porra. Não é longo kkkk tá de sacanagem!?
“Ahh, mas é longo pro Instagram”. Não é. Ele parece ser, porque estamos acostumados a valorizar os 3 ou 4 primeiros segundos de um vídeo.
Mais um desabafo: eu ainda não sou bom em gravar vídeos curtos… Mas preciso te falar que tenho experiência em produzir conteúdo e que é muito difícil reduzir, por exemplo, um texto ou uma história legal em um post pro Instagram sem deformar o aprendizado e deixar ele superficial. É difícil.
Mas essa edição não é sobre desabafos. Vamos ao que importa:
Estamos falando aqui que “o jogo” tá fazendo a forma de um vídeo se tornar mais memorável que a ideia dentro dele… E aí o público, sem perceber, passa a buscar o que parece importante, não o que é.
Você provavelmente sente isso também, olha só: quantos posts você salvou e nunca mais revisitou? Quantas vezes confundiu o impulso de “salvar para ler depois” com o ato real de aprender?
A gente vive cercado por conteúdo que promete profundidade, mas entrega apenas o conforto de se sentir interessado. O resultado é a sua aba de posts salvos do Instagram estar lotada, mas cheia de teias de aranhas de tanto tempo que você não volta lá pra ler algo que salvou.
A estética é parte do jogo, eu sei, mas quando o jogo dita as regras do pensamento, o pensamento começa a perder densidade. O que resta, então, é recuperar a intencionalidade: saber por que se consome, e por que se cria.
A enxurrada de conteúdo só vai crescer daqui pra frente. Ela não vai mudar… E se ela não vai mudar, só tem duas outras coisas pra mudar nessa equação: ou você joga fora seu celular (seria menos radical apagar as redes sociais) ou você muda sua postura. Não tem outra variável pra mudar.
Nós precisamos tornar nossa atenção consciente de novo.
PS: alguém produz esse boné pra mim? Eu compro (fiz no GPT, risos).
Pra resumir, são 3 conclusões (ou provocações?) que quero deixar aqui:
1. A estética está virando critério de credibilidade, não complemento.
O público passou a associar inteligência e autoridade a cenários bem produzidos, luz bonita, enquadramento limpo, carros, relógios, casas e ganchos chamativos. O que antes era um meio de chamar atenção virou o próprio sinal de competência.
2. O sistema de criação e consumo de conteúdo está deformando o pensamento.
A pressão para se adaptar ao formato (ganchos, ritmo, estética) força criadores a moldar o que dizem, não apenas como dizem. A consequência é uma cultura em que o conteúdo precisa ser “performado” para funcionar, o que dilui profundidade e incentiva ideias simplificadas, rápidas e visualmente atraentes, mas rasas. Faz sentido?
3. Atenção virou moeda e, por isso, estamos condicionados a reagir a estímulos visuais, não a ideias.
A gente tá sendo “adestrado” a responder aos barulhos e estímulos visuais da mesma forma que um cachorro reage a um som. Isso é simbólico: a atenção hoje é capturada mais por reflexo do que por interesse genuíno (!!!), olha que loucura. A gente reage ao estímulo visual antes mesmo de pensar se aquilo importa de verdade.
Bom… Eu não tenho muitas outras conclusões aqui. O negócio é ser mais intencional no consumo de conteúdo, cada vez mais.
E se tem uma coisa que eu sei, é que o primeiro passo pra resolver um problemão é definir o que é esse problema e falar constantemente sobre ele.
É o que te propus nesse texto de hoje.
Espero que tenha sido útil pra você.
Muito obrigado por ler até aqui.
Um abraço,






Cara, o seu conteúdo é um antídoto para o pensamento de hoje. Hoje em dia, um cara que eu gosto de acompanhar é você, tanto aqui quanto no the jobs. Esses conteúdos são riquíssimos, e eu fico pensando: como que tem gente que não busca esse tipo de informação? E é tudo de graça! Isso pra mim é loucura.
não é angustiante perceber que, fatalmente, todo profissional vai ter que botar a cara na internet? (caso queira realmente se destacar, claro) to falando de professor, advogado, médico, fisioterapeuta, arquiteto, mestre de obras, chef de cozinha... tá tudo se condensando ali! como os tímidos se arranjarão? e os metódicos? sistemáticos? ordinários, carentes de autoestima, inseguros, sem jeito,..., ou os que simplesmente lêem o mundo e reconhecem (serenamente) sua insignificância?