🔵 164: A paz que a gente insiste em perder
Mais alguns princípios muito úteis de vida
Essa newsletter também tem uma versão narrada em podcast, caso você prefira. É só clicar aqui. Minha sugestão: ler o texto e depois, em outro momento, ouvir o podcast. As reflexões serão diferentes e ainda melhores… ;)
Eu li uma história muito legal nessa semana.
Essa história é base da primeira parte dessa newsletter. A história é a seguinte:
Um monge quer meditar e aí ele entra num barco e vai pro meio de um lago, porque ele não queria ser interrompido.
Horas depois, em um silêncio absoluto e longe de qualquer distração, ele sente uma batida. Outro barco trombou no dele.
De olhos ainda fechados, ele sente uma irritação começando a borbulhar dentro dele. “Como alguém pode ser tão descuidado? Por que fariam isso? Realmente não viram que eu estava aqui? Estou meditando há horas e aí me interrompem logo aqui, no meio do lago.”
Ele abre os olhos pronto para reclamar com a outra pessoa e vê que o barco estava vazio. Solto da margem, levado pelo vento, coincidentemente bateu no dele. O lago era pequeno.
E aí a raiva some de repente… Porque não dá pra brigar com um barco vazio.
Essa história é do Zhuangzi, um texto taoísta escrito há mais de 2.300 anos.
E atravessou milênios porque revela um negócio que é simples, desconfortável: a nossa raiva raramente vem do evento em si. Ela vem da intenção que a gente assume que existe por trás do que realmente rolou.
Pensa aí no seu trabalho: você manda um e-mail longo, cheio de detalhes, e recebe um “ok” como resposta. Ou você começa a falar numa reunião e alguém te interrompe no meio. Ou você se prepara dias para um encontro com cliente e ele cancela em cima da hora. Ou até seu gestor esquece de te incluir numa thread importante.
Em cada uma dessas situações, o que acontece nas nossas cabeças é pensar em coisas como: “Ele não valoriza meu esforço”, “Ela me desrespeitou”, “Eles não ligam pro meu tempo” ou “Me excluíram de propósito”.
E pode até ser verdade em alguns casos… Mas, na maioria, não é. Na maioria dos casos é só pressa, distração e principalmente coincidência. São só pessoas (assim como nós) tentando sobreviver ao próprio dia. São barcos vazios.
O problema é que nosso cérebro não curte nem um pouco essa ideia de barcos vazios. O meu e o seu cérebro querem acreditar que tudo tem um autor, uma intenção, trama. Nosso ego adora inventar esses vilões, porque precisa se sentir o protagonista da história.
Quando a gente deixa essa narrativa crescer, a gente tá fabricando nosso próprio veneno. A raiva que cresce dentro de você não veio do “ok” seco, da interrupção ou do cancelamento, mas sim da suposição de que havia uma má intenção por trás. Você não ficou bravo pelo que aconteceu, você ficou bravo pelo que acreditou que tinha acontecido.
E aí vale trazer uma referência bem legal aqui. Provavelmente, você nunca ouviu falar da Indra Nooyi, mas ela já chegou a ser a 12ª mulher mais influente do mundo pela Forbes, ex Presidente e CEO da PepsiCo, Conselheira da Amazon e muito mais.
Ela deu uma entrevista uma vez contando que o melhor conselho de liderança que já tinha recebido era simples: assume positive intent (assuma boas intenções).
Pra ilustrar: se você entra numa conversa presumindo que o outro quis te prejudicar, você já chega irritado, na defensiva. Se entra presumindo que não houve malícia, você consegue ouvir com generosidade e falar com clareza. E essa é a ponte entre o barco vazio e a liderança (como virtude, não como cargo):
Se a raiva nasce da percepção de má intenção, então assumir boa intenção é o jeito mais inteligente de proteger não só a sua paz, mas também a forma como você conduz os outros.
Liderar é, em grande parte, escolher em que histórias você acredita.
E eu, como um bom curioso e pseudo-pesquisador, encontrei mais uma referência legal relacionada a isso: esse exercício de assume good intentions tem um nome legal na psicologia aplicada, que foi dado pela Dra. Becky Kennedy: é a Most Generous Interpretation (MGI).
A ideia da Most Generous Interpretation é considerar, quando acontece algo, a versão mais generosa possível desse acontecimento. Você dá aos outros o benefício da dúvida e, com isso, preserva sua paz (porque, na maioria das vezes, é verdade: não houve malícia).
Se alguém te corta no trânsito, você pode pensar “que animal quadrúpede estúpido” ou pode pensar que essa pessoa está correndo para o hospital. Se alguém fura a fila, você pode pensar que “esse egoísta idiota merece uns tapas” ou imaginar que a pessoa estava distraída e simplesmente não percebeu que havia fila. A diferença não está no que aconteceu, mas no que você escolhe acreditar que aconteceu.
Não me entenda errado, isso não significa virar santo. Isso é, na verdade, uma estratégia pra ganhar tempo. Até porque, se houver má intenção, mais cedo ou mais tarde ela vai aparecer e, quando aparecer, você vai estar numa posição melhor pra agir. Você não vai se intoxicar pela raiva que você mesmo fabricou e vai ter os fatos em mãos.
Quando a gente olha ao nosso redor e vê quem a gente respeita de verdade, aqueles líderes que passam confiança, a gente percebe que eles não são as pessoas que reagem a cada “batida de barco” como se fosse ataque.
Reagir menos é sinal de força, não de fraqueza.
O objetivo desse texto é escancarar o fato de que buscar culpados é viciante. A gente precisa treinar o monge interior pra não dar palco a um inimigo que provavelmente nem existe.
É meio doido falar isso, mas se esse texto fizer pelo menos um pouco de sentido, também vai fazer sentido dizer que, muitas vezes, a gente não tá brigando com pessoas e sim com a nossa própria interpretação. What the f*ck?
Na próxima vez que “um barco bater no seu” por aí, a pergunta pra se fazer é: “eu fico bravo com barcos vazios?”. Talvez sim, talvez não, mas só de fazer a pergunta, você já vai criar um espaço dos bons por aí pra refletir.
E talvez esse seja o maior ato de liderança que você pode praticar hoje, começando pela liderança de si mesmo/a.
PS: o texto de hoje é uma continuação desse texto aqui. Foi um dos mais importantes que já escrevi, porque fala de 2 dos princípios de vida mais importantes que tenho.
Eu gostei tanto de escrever ele (e os feedbacks foram tão legais) que quis trazer mais três referências que podem melhorar suas relações com outras pessoas da água pro vinho.
Não precisa ler um pra entender o outro… Mas os dois se complementam muito bem.
Muito obrigado por ler até aqui.
Espero que tenha gostado.
Vamos juntos,




"Reagir menos é sinal de força, não de fraqueza." 🤯👏🏻
Um texto impecável e só quem trabalha diretamente com equipes entende que cada vírgula faz total sentido. É impressionante como as ações das pessoas automaticamente gera no outro uma narrativa de má intenção fazendo que tudo que acontece foi de maneira proposital e intencional. Dessa forma, é inviável ter uma conversa entre pares que não vire um confronto descabido. E eu concordo 100% com: na maioria das vezes não é maldade, são apenas pessoas e vou tomar a liberdade de acrescentar: um barco vazio de competências e habilidades humanas.