🔵 192: O outro nome da sorte
E os meus exemplos pessoais de "sorte e azar"
Se você prefere ouvir podcasts, voltei a gravar as versões em áudio dessa newsletter com eventuais comentários extras nesse link aqui.
O ano era 2009.
Eu estava no terceiro ano da escola e eu estava no intervalo das aulas mostrando músicas para os meus amigos no meu primeiro iPod Shuffle (que bela lembrança).
Eu renomeava os arquivos com números e letras pra eles ficarem na ordem que eu queria. Não sei se era a melhor maneira de ordenar em um iPod que não tinha tela, mas funcionava pra mim e eu me divertia.
Eu sempre fui muito eclético. Desde criancinha tocava no repeat fitas cassetes (entreguei a idade) e CDs de Leandro e Leonardo a Bob Marley e The Offspring.
Mas nessa época de escola, eu ouvia muito mais rock e rap, os dois internacionais, porque era assim que eu treinava meu inglês. Me lembro até hoje de ler repetidas vezes aquele folhetinho que vinha nas capas dos CDs estudando as letras das músicas.
Estou te falando tudo isso, porque me lembro quando descobri quem era o tal do Fabolous, um rapper americano legal (mas que nunca foi meu preferido).
É muito curioso como algumas músicas marcam a gente. Por exemplo: a banda SOJA tem uma música em que eles falam uma frase (“vanity will never drive this man insane”) que eu me lembro provavelmente de 4 a 5 dias por semana. Sem exagero.
E o Fabolous tem uma música chamada My Time que tem uma frase que também nunca saiu da minha cabeça:
“First I take the time out, then I put the time in.
Money ain’t everything, it’s more about the timing”.
“Dinheiro não é tudo. É mais sobre o timing.”
Eu tinha 17 pra 18 anos e não fazia ideia do tamanho dessa frase, mas ela ficou comigo.
Mas timing não tem uma tradução literal no português.
Não dá pra falar que é o “momento certo”, porque não existe momento certo, mas dá pra falar sim que existem momentos que são melhores que outros e, hoje, posso dizer que a distância entre esses momentos é bem maior do que a gente gosta de admitir.
A sorte parece uma força aleatória que você não controla.
Só que boa parte do que a gente chama de sorte é timing.
E existe uma parcela do timing que tá total no nosso controle: reconhecer uma janela e se mexer enquanto ela está aberta.
A janela de oportunidade se abre no tempo dela. Você tem zero influência nisso. O que é seu é estar posicionado e em movimento quando essa janela abrir.
Isso faz com que duas pessoas de mesma competência possam produzir resultados absurdamente diferentes dependendo de quando/como/onde usarem essa competência.
Eu decidi escrever esse texto depois de reparar no quanto as pessoas de sucesso, na gigantesca maioria das vezes quando contam sobre sua jornada, supervalorizam seus esforços, ideias e atitudes sem citar um único componente de “sorte” (e comparar isso com ouvir um senhorzinho bilionário de 95 anos, em vez de falar de todos seus sucessos e esforços, simplesmente dizer “eu só tive muita sorte, nada mais” sobre suas conquistas).
E olha que eu sou um cara bastante meritocrático, vamos dizer assim. Mesmo falando de sorte, eu vou continuar colocando a competência no centro.
Pra deixar claro: acredito que competência é o preço de entrada e timing não garante nada. Bom timing aumenta suas chances. É uma aposta com a chance jogada a seu favor.
Guarda essa dupla, porque ela sustenta o texto inteiro: a competência te qualifica, o timing te multiplica.
Deixa eu trazer alguns exemplos, tanto meus quanto do mercado, que são bem diferentes entre si pra tentar provar meu ponto:
Um exemplo de good timing meu de 2020:
Quando eu entrei na Link School of Business, não existiam alunos e estávamos terminando de arrumar o prédio e fazer o primeiro processo seletivo da faculdade.
Eu cheguei cedo, quando ainda tinha espaço pra construir junto. Com minha competência e, julgo eu, preparo bem acima da média, fui convidado a me tornar sócio com 6 meses de empresa, sendo que eu ainda empreendia part-time com minha outra empresa.
A janela de oportunidade se abriu e eu enxerguei e aproveitei ela.
Mais um exemplo de bad timing meu de 2017:
Eu tinha minha própria newsletter e podcast num momento em que eles começaram a crescer, mas nunca mantive uma boa frequência de posts nas redes sociais e vi, inúmeras vezes, gente começando bem pior que eu e avançando no engajamento de redes sociais por conta de aproveitarem o timing de alta das redes sociais quando não havia conteúdo tão abundante quanto hoje.
A janela de oportunidade se abriu e eu não aproveitei ela.
Quem levava isso a sério lá atrás, muito provavelmente hoje é referência (quase inalcançável) no que faz.
Mais um exemplo de bad timing meu (e good timing de um concorrente) de 2020:
Eu tive uma escola de soft skills de 2019 a 2022 que dava cursos ao vivo e presenciais. Ensinávamos inteligência emocional, comunicação, produtividade etc.
Em 2020, a pandemia veio e eu, por um preciosismo meu, não quis fazer cursos gravados, porque não acreditava que ia ensinar tão bem as pessoas.
Um dos meus concorrentes na época, chamado Escola Conquer, enxergou o timing ideal de pandemia, lockdown, e o cenário de todo mundo com medo e aproveitou não só pra converter suas aulas de ao vivo pra gravadas, como liberou gratuitamente o seu curso de Inteligência Emocional. Isso bombou absurdamente e ouso dizer, como espectador, que foi a ação mais importante da história da Conquer que a fez ser, após anos, vendida por ~R$400 milhões para o Flávio Augusto.
A janela de oportunidade se abriu e eu não enxerguei ela.
E um exemplo clássico de bad timing do mercado:
Em 1974, em plena crise do petróleo, um engenheiro brasileiro chamado João Gurgel apresentou no Salão do Automóvel de São Paulo um carro chamado Itaipu E150:
Era um minicarro urbano, dois lugares, 100% elétrico, com bateria que recarregava numa tomada comum. Foi o primeiro carro elétrico desenvolvido na América Latina, décadas antes de Tesla e BYD.
O carro nunca vingou. Faltou uma bateria decente pro carro, faltou infraestrutura e também faltou um mundo pronto pra aquilo (e, pra ser justo, a empresa Gurgel só quebrou deopis de quase 20 anos por outros motivos). O talento estava todo lá, o timing que não era o correto.
O meu real motivo de escrever sobre timing.
Eu poderia escrever mais algumas dezenas de exemplos de timing bom vs. ruim, mas estou escrevendo esse texto, porque acredito que timing é o outro nome da sorte.
E quero defender essa minha tese com um último exemplo real:
Na última semana, eu conversei com um grande amigo sobre como vamos continuar vendendo nossos treinamentos de IA para leitores da nossa newsletter, mas que também vamos vamos começar a focar nesses treinamentos para empresas.
E aí ele me contou de uma reunião marcante que ilustra bem meu ponto aqui: uma conversa que ele teve com um dos Gerentes de Inovação de uma empresa de bens de consumo Top 5 no Brasil.
Ao conversar com ele sobre diferentes usos de IA no dia a dia, essa pessoa falou de uma dificuldade com uma tarefa e meu amigo perguntou se essa pessoa já tinha testado as features de extended thinking ou deep research pra isso.
Mas a pessoa não sabia o que era extended thinking nem deep research.
O equivalente a isso é não saber que o Excel tem outras funções além de somar células.
Se você não sabe o que é extended thinking ou deep research, você está atrasado e digo isso com a maior honestidade do mundo: requer um mínimo de esforço e muito pouca curiosidade pra descobrir o que são essas funcionalidades presentes em todas as IAs.
E saber o que são essas coisas também não é motivo de orgulho. Tem muita coisa além.
Eu estava tentando escrever isso com o maior cuidado do mundo pra não parecer sensacionalista, mas decidi apagar minhas palavras mais cuidadosas pra deixar aqui em pleno português o que acredito que vai acontecer (e que já estou vendo acontecer) daqui pra frente:
Existe uma janela que está se fechando, mas essa não é a janela de aprender IA. Daqui 3 ou 6 meses você ainda vai poder aprender a usar IA.
O que está se fechando é a janela de conseguir se diferenciar sabendo usar IA.
“Saber usar IA” vai virar feijão com arroz com certeza. Em pouco tempo, vai se tornar um pré requisito invisível que ninguém vai elogiar.
Quem for aprender a usar IA “só daqui alguns meses” vai precisar acostumar com a ideia de viver se defendendo pra poder se manter no jogo corporativo.
Uma prévia do futuro do trabalho.
O que já está acontecendo daqui pra frente é um pouco silencioso:
O mesmo esforço que hoje pode te colocar na frente dos outros por “já saber aplicar IA no seu trabalho”, amanhã se torna só “o básico que você já deveria saber”. O diferencial tá derretendo devagar e vai se tornar a média.
É o Fabolous de novo. Dá tudo no timing.
O mundo recompensa quem entende como essas janelas funcionam e tem uma aberta bem na sua frente agora.
Ninguém controla quando a próxima janela abre, então a única vantagem real é conseguir enxergar a janela enquanto ela ainda está aberta. Isso já é muito mais do que a maioria tem e você, ao chegar até aqui nesse texto, vai carregar daqui pra frente a responsabilidade de ter enxergado que essa janela ainda está aberta.
PS: minha empresa tem uma trilha de IA aplicada ao mundo corporativo e, se esse for o caso, nós podemos te ajudar. Não vou deixar link algum aqui de venda pra não parecer que “escrevi esse texto só pra vender”. Nas próximas edições eu trago mais novidades sobre isso, mesmo que o texto seja de outro assunto.
Muito obrigado por ler até aqui.
Vamos juntos,
Aos curiosos, aqui tem um outro texto legal que escrevi sobre como aumentar a própria sorte.
E aproveitando que falamos de hip hop hoje, a indicação vai pra essa música não tão conhecida de uma lenda do rap que fala sobre ele “sentado com seus pensamentos”.
Mas você pode seguir a playlist country aqui também.







O pior cenário não é a falta de letramento digital, mas a ilusão de tê-lo. Há muitos que estão se atendo aos atalhos e deixando o aprofundar de lado. Considero que esse é o maior problema, o falso saber.